Ficávamos as duas, cada uma na parte mais alta de um escorrega, comendo o nosso lanche em silêncio. Éramos muito amigas e cúmplices pelo fato de uma compreender a angústia da outra, sem apontar defeitos ou críticas.
A gota d'água aconteceu em um restaurante, com meus pais e meu irmão, quando VI e ESCUTEI uma mãe apontar para mim e falar com a filha :
-Se você não usar aparelho nos dentes vai ficar igual aquela menina ali.
Escutei letra por letra... Meu pai já tinha pedido a conta e, na hora, sem comunicar a ninguém, fui até a mesa desta senhora e, aos berros, mandei o meu recado tão sutil quanto um rinoceronte:
- Vá pra PQP... olhei nos olhos dela e saí correndo, chorando copiosamente...
Foi um desabafo, meus pais desnorteados, sem entender nada até que tive fôlego e contei. Meu pai apenas disse que eu fiz bem, mas não deveria ter virado às costas e sim encarar "de frente" a situação. Na hora pedi uma solução "na frente" e na semana seguinte já estava usando aparelho fixo.
Como nutricionista, escutava muito o discurso dos pequeninos pacientes:
"Me chamam de baleia na escola", " As meninas me chamam de bola", etc...
Nestes casos, achava interessante relatar o meu caso "dentário" para os meus pacientes fofinhos, pois apesar das questões serem diferentes, para lidar com situações como estas, só funciona mesmo com a fórmula: DESEJO + DETERMINAÇÃO= MUDANÇA. Como mediadora, entrei com a didática, cumplicidade, a restrição calórica e atividade física.
No meu caso, tive que contar com a ajuda financeira da meu pai para pagar o tratamento dentário, mas para um resultado eficaz, dependia muito mais de mim, seguir à risca as determinações do dentista. No caso das crianças com sobrepeso, todas apareceram no mês seguinte mais magras e agradecidas.
Um aluno que precisa de nutricionista é algo incomum, mas acontece. Tentei de toda maneira ajudar uma aluna a superar as péssimas notas, em um escola de péssima qualidade e resolver isso era a meta principal. Com muito esforço dela própria, mas com a total falta de colaboração do colégio dentre outras dificuldades associadas (como o próprio "bullying- sobrepeso"), repetiu o 5º ano.
Recebi a ligação do pai, triste, mas com a esperada notícia. Sugeri que este fato fosse o ponto de partida para a mudança da escola e para um melhor preparo para avançar nos estudos. Quando pediu para falar comigo, utilizei mais uma vez o meu exemplo, neste caso, porque repeti a 7ª série, atual 8ºano, o qual foi fundamental para que eu adquirisse mais maturidade.
Ela simplesmente respondeu:- "Tia, eu nunca vou me esquecer do seu misto quente". Mesmo percebendo o grau de profundidade desta afirmação, tenho certeza que no próximo ano, os problemas principais na escola serão resolvidos.
É claro que tentarei fazer um misto quente mais light para ela, mas talvez nem seja preciso porque pode aparecer magrinha e feliz, quem sabe?
Depende dela somente...EU SEMPRE ACREDITO!















