12 de dezembro de 2011

Bullying- O perigo no meio do caminho


Posso afirmar que sei o que é sofrer de Bullying porque passei por isso em um período da minha vida. No meu caso não sofri porque estava acima do peso, como acontece na grande maioria dos casos, mas aos 9 anos, era tão DENTUÇA quanto o Mr. Bearns dos Simpsons. Para frente e com os dentões da frente separados o suficiente para caber um "dente de leite" no meio. Via o meu estojo voar pela sala, as meninas mais tchutchukas me desprezando solenemente e tinha apenas uma amiga, que tão tímida quanto eu, falava o estritamente necessário.

Ficávamos as duas, cada uma na parte mais alta de um escorrega, comendo o nosso lanche em silêncio. Éramos muito amigas e cúmplices pelo fato de uma compreender a angústia da outra, sem apontar defeitos ou críticas.
A gota d'água aconteceu em um restaurante, com meus pais e meu irmão, quando VI e ESCUTEI uma mãe apontar para mim e falar com a filha :
 -Se você não usar aparelho nos dentes vai ficar igual aquela menina ali.
Escutei letra por letra... Meu pai já tinha pedido a conta e, na hora, sem comunicar a ninguém, fui até a mesa desta senhora e, aos berros, mandei o meu recado tão sutil quanto um rinoceronte:
- Vá pra PQP... olhei nos olhos dela e saí correndo, chorando copiosamente...
Foi um desabafo, meus pais desnorteados, sem entender nada até que tive fôlego e contei. Meu pai apenas disse que eu fiz bem, mas não deveria ter virado às costas e sim encarar "de frente" a situação. Na hora pedi uma solução "na frente" e na semana seguinte já estava usando aparelho fixo.

Como nutricionista, escutava muito o discurso dos pequeninos pacientes:
"Me chamam de baleia na escola", " As meninas me chamam de bola", etc...
Nestes casos, achava interessante relatar o meu caso "dentário" para os meus pacientes fofinhos, pois apesar das questões serem diferentes, para lidar com situações como estas, só funciona mesmo com a fórmula: DESEJO + DETERMINAÇÃO= MUDANÇA. Como mediadora, entrei com a didática, cumplicidade, a restrição calórica e atividade física.

No meu caso, tive que contar com a ajuda financeira da meu pai para pagar o tratamento dentário, mas para um resultado eficaz, dependia muito mais de mim, seguir à risca as determinações do dentista. No caso das crianças com sobrepeso, todas apareceram no mês seguinte mais magras e agradecidas.

Um aluno que precisa de nutricionista é algo incomum, mas acontece. Tentei de toda maneira ajudar uma aluna a superar as péssimas notas, em um escola de péssima qualidade e resolver isso era a meta principal. Com muito esforço dela própria, mas com a total falta de colaboração do colégio dentre outras dificuldades associadas (como o próprio "bullying- sobrepeso"), repetiu o 5º ano.

Recebi a ligação do pai, triste, mas com a  esperada notícia. Sugeri que este fato fosse o ponto de partida para a mudança da escola e para um melhor preparo para avançar nos estudos. Quando pediu para falar comigo, utilizei mais uma vez o meu exemplo, neste caso, porque repeti  a 7ª série, atual 8ºano, o qual foi fundamental para que eu adquirisse mais maturidade.

Ela simplesmente respondeu:- "Tia, eu nunca vou me esquecer do seu misto quente". Mesmo percebendo  o grau de profundidade desta afirmação, tenho certeza que no próximo ano, os problemas principais na escola serão resolvidos.
É claro que tentarei fazer um misto quente mais light para ela, mas talvez nem seja preciso porque pode aparecer magrinha e feliz, quem sabe?

Depende dela somente...EU SEMPRE ACREDITO!



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